Ibovespa cai em meio a cenário de baixa visibilidade

  • 10 de setembro de 2020
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Durante agosto, o índice Ibovespa caiu 3,4%, encerrando o mês abaixo da marca dos 100.000 pontos. Com este desempenho, a bolsa brasileira interrompeu a sequência de altas mensais que vinha apresentando desde as mínimas atingidas durante a pandemia, produzindo assim um resultado inferior ao das bolsas americanas, que foram sustentadas em grande parte por ações do setor de tecnologia. 

O índice americano S&P 500, por sua vez, subiu 7,0% no último mês, registrando a maior alta para um mês de agosto desde 1986. Essa alta se consolidou em meio ao avanço da recuperação da economia dos Estados Unidos e a novas sinalizações de comprometimento por parte do Federal Reserve em manter as taxas de juros em níveis próximos a zero por um período prolongado.

A maior cautela em relação aos ativos brasileiros observada entre os investidores foi, em grande parte, gerada pelo ambiente fiscal mais conturbado no país. Questões como as discussões em torno da proposta orçamentária para 2021 e a prorrogação do auxílio emergencial levantaram preocupações com relação ao aumento das despesas públicas.

O dólar encerrou o mês de agosto em alta de 5,2% frente ao real, o que também reflete esta deterioração da percepção do investidor sobre as contas públicas do país.

Durante o último mês, enquanto atravessávamos um período de baixa visibilidade em relação ao nosso cenário fiscal, buscamos descorrelacionar as carteiras e o risco embutido nas ações brasileiras. Assim, direcionamos parte dos investimentos de risco para fundos multimercados, buscando um aumento na diversificação geográfica, de ativos e de mercados. 

Apesar desse movimento, continuamos com nossas alocações em gestores de ações brasileiras. Entendemos que, apesar da baixa visibilidade em relação à agenda de reformas estruturais no Brasil, a economia tem mostrado sinais positivos de recuperação e ainda existem boas oportunidades nesse mercado. 

Corrida eleitoral americana se acirra e corrida pela vacina continua

Os debates para as eleições presidenciais nos Estados Unidos começarão em Setembro, em um ambiente que, apesar de muito incerto, indica ampla vantagem para o candidato do Partido Democrata Joe Biden. Os debates poderão trazer à tona questões relacionadas à China e ao acordo comercial entre este país e os Estados Unidos. Paralelamente, a disputa pelo Senado tende a se intensificar ainda mais. A menos de dois meses da eleição, a chance de uma vitória democrata na casa (que tem hoje maioria republicana) é de cerca de 60%. Tudo isso deve trazer boas doses de volatilidade ao mercado. 

A corrida pela descoberta de uma vacina segura contra o SARS-CoV-2 vem avançando rapidamente, a ponto de algumas empresas já estarem prometendo para os próximos meses a divulgação dos avanços obtidos na terceira e última fase das pesquisas. Uma eventual aprovação de uma vacina, que seja segura e eficaz, nos próximos meses seria uma surpresa muito positiva em relação às expectativas inciais e pode destravar a recuperação dos setores da economia mais afetados, com fortes impactos nos preços dos ativos.  

Reformas em foco e articulação do governo em cheque

No Brasil, por sua vez, teremos durante o mês de setembro o andamento dos debates em torno da Reforma Administrativa e da Reforma Tributária. Tudo indica que ambas devem ser pautadas a tempo, levando em consideração não apenas o ritmo de votação normal de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC), mas também o calendário das eleições municipais no fim do ano. O texto da proposta da Reforma Administrativa já chegou ao Congresso e seguirá o mesmo rito da Reforma Tributária (que, aliás, já incluiu a nova Contribuição sobre Bens e Serviços, a CBS, o tributo sobre valor agregado que irá unificar o PIS e a Cofins).  

Também teremos a discussão sobre o orçamento do governo para 2021, que deve colocar à prova a nova articulação do governo, sob a liderança de Ricardo Barros.

Na economia real, o Brasil mostrou um significativo avanço até agora, com boas surpresas nos números da indústria e a postergação do auxílio emergencial (no valor de R$ 300) até o fim do ano. A retomada da atividade já começou, e o andamento das reformas pode facilitar o ambiente de negócios – o que, por sua vez, pode permitir uma taxa de juros ainda menor até o fim de 2020, quando o auxílio emergencial deverá ser substituído pelo programa Renda Brasil, que terá como alvo uma parcela bem menor da população. E esse será o momento em que poderemos ver com clareza qual é o real ímpeto da retomada em terras brasileiras. 

Seguimos com a visão de que está em curso uma recuperação econômica em um cenário de juros baixos e estímulos econômicos massivos – enquanto os mercados aguardam a chegada de uma vacina contra a Covid-19 e buscam a velocidade e força dessa recuperação. Considerando o balanço de riscos que projetamos à frente, optamos por manter as proteções para nossas posições em renda variável como forma de proteger as carteiras de possíveis eventos extremos. 

Agradecemos a leitura e até a próxima!