Carta Loyall Julho 2020

  • 7 de julho de 2020
  • Cartas
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Sumário

Durante o mês de junho o índice S&P 500 subiu 1,8%, e o Ibovespa 8,8%. O dólar PTAX, por sua vez, se valorizou em 0,9% contra o real, e o IMA-B (índice que representa o desempenho de uma carteira de títulos públicos federais atrelados à inflação) avançou 2%. Os fundos geridos pela Loyall no período também apresentaram bons resultados.

Ao longo da primeira metade do mês os ativos de risco sofreram uma intensa valorização impulsionada pelo otimismo em torno da reabertura das economias na Europa e nos Estados Unidos — bem como por dados econômicos mais fortes do que o esperado. Na sequência, porém, este movimento se arrefeceu parcialmente com as informações sobre aumentos relevantes de casos de Covid-19 em alguns desses lugares.

Juros globais perto do zero por um longo período e governos gastando dinheiro a fundo perdido têm sido importantes vetores de sustentação dos preços de mercado em meio aos massivos impactos econômicos gerados pela pandemia do coronavírus. E a cada dia que se passa os dados econômicos vão mostrando que estamos passando por um momento de virada de ciclo, momento este que está se desenrolando com um suporte imenso por parte dos governos.

O banco central dos Estados Unidos já indicou que irá priorizar o suporte à atividade econômica por um longo período ainda e a China intensificou as ações de estímulo e já mostra sinais de recuperação na atividade. Na Europa, os principais indicadores têm registrado resultados animadores.

No Brasil, os dados nos levam a crer que o pior da crise já passou. Além disso, o Banco Central deverá continuar provendo um grande suporte à economia. No cenário político, o presidente passou a adotar uma postura mais “paz e amor” e menos de confronto. Enquanto isso, as duas casas legislativas têm demonstrado alinhamento em torno de uma agenda de reformas e de uma política econômica ortodoxa.

Como o recente movimento de recuperação do mercado foi bastante rápido e intenso, era já esperada uma redução no ritmo de valorização dos preços dos ativos — ou mesmo uma pequena queda nesses preços. Assim, continuamos carregando algumas proteções para a posição em ações.

Boa leitura!

Economia

Acreditamos que, a partir de julho, as principais discussões no Brasil se darão em torno das reformas, principalmente a tributária. A definição do adiamento das eleições municipais para novembro poderá facilitar o processo de debates e de votação no Congresso, mas mesmo assim dificilmente teremos a aprovação de uma reforma tributária completa como aquela da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 45. No nosso entendimento, o cenário mais provável é de uma aprovação parcial; com uma reforma que não mexerá, no momento, com o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), se limitando mais a tributos e questões da alçada da União. Mesmo assim, esta reforma já seria uma importante melhoria em um sistema tributário totalmente ultrapassado.O novo coronavírus ainda continuará sendo, por algum tempo, um assunto crucial no mundo. Os processos de reaberturas graduais já começaram e, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, cada estado e mesmo cada município irá lidar com a questão de maneira específica. Além disso, tanto lá quanto aqui serão frequentes os passos maiores do que a perna — e os consequentes recuos nas aberturas. No entanto, mesmo estes recuos dificilmente significarão o retorno das medidas mais extremas de isolamento social.

Os estados brasileiros que tiveram até agora uma menor incidência de casos são, ao menos em um primeiro momento, os mais vulneráveis a uma escalada nas contaminações. No entanto, nesse segundo semestre de 2020 o vírus já é muito mais conhecido pelos agentes de saúde, os agentes públicos e a própria população do que no início da pandemia.

As reaberturas têm trazido indicadores cada vez melhores de retomada nas economias, com frequentes surpresas positivas em relação aos indicadores dos gerentes de compras (ou Purchasing Managers Indexes, os PMIs) de todos os setores — até mesmo no Brasil. A criação de empregos nos Estados Unidos, que surpreendeu positivamente em maio, é outra demonstração de que a retomada está ocorrendo de forma mais vigorosa do que supunham as previsões mais pessimistas de abril.

No entanto, é preciso lembrar que o caminho pela frente ainda será árduo e sujeito e altos e baixos. Somente em um cenário muito otimista teríamos uma retomada em “V”, onde o nível de atividade de 2019 seria alcançado no fim de 2021. Além disso, alguns fatores podem atrapalhar o processo de recuperação da economia brasileira tanto no plano local quanto no global. Dentre eles estão, de um lado, um possível processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro e, de outro, as tensões entre Estados Unidos e China e a própria eleição presidencial norte-americana no final do ano.

A boa notícia é que, apesar de a relação entre as duas maiores economias mundiais ter se estremecido, a situação parece controlada. A princípio, uma eventual reeleição do presidente norte-americano Donald Trump parece algo vantajoso para a China, visto que ele foi o responsável por reabrir o canal de comunicação com os asiáticos e também pelo processo de acordo comercial que está em andamento e favorece ambas as nações. No entanto, há um fator que pode fazer com que os nervos voltem a ferver: Taiwan. Em um eventual cenário de sanções, esta província chinesa independente possuiria um poder de contra-ataque consideravelmente maior do que aquele de Hong Kong — província que está desde o final de junho sob uma nova e polêmica lei de segurança imposta pela potência asiática.

As prévias das eleições presidenciais norte-americanas realizadas no início deste primeiro semestre apontam para uma larga vantagem do candidato democrata Joe Biden sobre o republicano Donald Trump. Além disso, o ruído de informação (ou variância) presente nesta margem de aferição é menor do que o das pesquisas que superestimaram o desempenho que a candidata democrata Hillary Clinton teria em 2016. Em um cenário de pandemia, o peso do tema saúde nas intenções de voto do eleitorado dos Estados Unidos cresceu muito, a ponto de o assunto estar acima (ainda que muito próximo) da economia no rol das preocupações. Trump precisará batalhar bastante para retomar a liderança nas pesquisas, e é provável que ele centre os seus esforços no plano econômico — o que, por sua vez, mitigaria o risco de uma escalada nas tensões com a China. De qualquer forma, vale ressaltar aqui que, mesmo considerando a ampla vantagem do Partido Democrata neste momento, o cenário ainda não é conclusivo.

No Brasil, o assunto política também segue em pauta, principalmente por causa dos vários — 48 até o dia 20 de junho — pedidos de impeachment contra Bolsonaro. No entanto, o peso do cenário político já foi mais relevante na conjuntura.  Mesmo se considerarmos que ainda há três possíveis frentes para a queda do presidente (no caso, crime comum, crime de responsabilidade e cassação da chapa Bolsonaro-Mourão), a popularidade dele permanece estável e será um grande entrave a qualquer tentativa de afastá-lo. De acordo com pesquisas recentes da XP Investimentos, Bolsonaro segue sendo avaliado como ótimo ou regular por cerca de 30% do eleitorado brasileiro. Dado que o impeachment é um processo majoritariamente político, a possibilidade de o presidente cair parece pequena neste momento. A diminuição dos ruídos políticos entre Executivo e Judiciário também pesam nessa direção pois o tom das declarações de ambas as partes mudou, principalmente após a queda do agora ex-ministro da Educação Abraham Weintraub e o avanço das investigações sobre as “rachadinhas” ocorridas no gabinete do filho mais velho do presidente em seus tempos de deputado estadual no Rio de Janeiro.

Mercados

O mês de junho foi marcado por uma intensificação da retomada da atividade global aliada ao anúncio de novos estímulos monetários e fiscais que estão auxiliando as economias a atravessar este período de crise decorrente da pandemia do novo coronavírus.

No campo dos juros, o Banco Central levou a taxa Selic a 2,25%. O Copom indicou que o ciclo de cortes chegou ao final, e que apenas reduções residuais podem ainda acontecer. Estes níveis baixos de juros têm motivado uma maior busca por ativos de maior risco inclusive por parte de pessoas físicas, o que naturalmente impulsiona o mercado de ações.

O Ibovespa apresentou um avanço de 8,8% durante o mês de junho, encerrando o primeiro semestre do ano em queda de 17,8% — um número expressivo, mas significativamente menor do que a queda acumulada de 45% registrada em março, no pior momento da crise. No entanto, quando olhamos para o desempenho da bolsa brasileira em dólares, a queda do índice no semestre se torna maior, chegando a quase 40%.

O real apresentou o pior desempenho entre os ativos locais: o dólar subiu quase 2% frente ao real em junho e acumula uma alta de 32% no ano. Um dos fatores por trás desta dinâmica é uma grande busca por proteção. Ou seja: investidores com alocações em diversos outros ativos estão se utilizado da liquidez do real para compor defesas para os seus portfólios, ficando comprados em dólar contra o real.

Estamos avançando cada vez mais em direção a um estado de maior clareza sobre o cenário econômico de médio e longo prazo tanto no mundo quanto no Brasil. Por isso, o ritmo de retomada dos índices de ações deverá prosseguir em alta, embora de forma menos acelerada do que foi observado até aqui — e com realizações ao longo do percurso. Pensando neste cenário, optamos por carregar proteções na nossa carteira via opções. Além disso, também esperamos para os próximos meses uma recuperação por parte das moedas de países emergentes, recuperação esta que estará atrelada à retomada econômica e a um menor grau de incerteza global — ou seja, a fatores que precisaremos seguir observando.

Agradecemos a leitura e até a próxima!