Carta Loyall Junho 2020

Sumário
Assim como ocorreu em abril, maio foi um mês de recuperação dos mercados. O índice S&P 500 subiu 4,5%, e o Ibovespa 8,6%. O dólar PTAX ficou estável contra o real, e o IMA-B (índice que representa a carteira de títulos públicos federais atrelados à inflação) subiu 1,5%. Os fundos geridos pela Loyall também tiveram bons resultados.

A injeção massiva de recursos financeiros e fiscais por parte de governos no mundo todo e os juros em patamares mínimos são alguns dos fatores que moveram os mercados em abril. O mesmo aconteceu em maio, mês que acabou contando também com impulsos extras como os sinais de sucesso na reabertura das economias que já passaram pela pior fase da pandemia e a melhora nos dados econômicos recentes. Estes fatores têm aumentado a visibilidade do cenário e deixado o mercado mais animado. Apesar de ainda ser cedo para fazermos afirmações, vemos sinais de que estamos passando por um momento de virada de ciclo.

O mundo está, neste momento, sabendo lidar melhor com a Covid-19. Já são conhecidas as formas pelas quais o contágio pelo novo coronavírus se dá — bem como aquilo que pode ser feito para evitá-las. Isso tem possibilitado uma convivência menos danosa com o SARS-CoV-2, que deverá permanecer circulando entre nós por um bom tempo ainda. Aos poucos, os indivíduos dos países que já passaram pela fase mais aguda do problema vão ganhando mais confiança para sair de casa à medida que o distanciamento social é relaxado, e o natural é que a atividade econômica nesses lugares mostre sinais de melhora — o que, aliás, já está acontecendo. No entanto, a chance de sucesso econômico na reabertura é maior nos países desenvolvidos do que nos países emergentes, por causa não só dos diferentes estágios em que diferentes nações estão dentro da linha do tempo da pandemia, mas também e principalmente por causa do maior nível de testagem e rastreamento nos países do primeiro grupo. De qualquer forma, enquanto não tivermos uma solução médica propriamente dita contra o novo coronavírus, a recuperação das atividades será necessariamente incompleta por conta do risco de novas ondas.

Este cenário deve manter a inflação e os juros baixos pelos próximos semestres em todo o globo. Somando isso à presente abundância de liquidez, formam-se boas condições para ajudar empresas e governos altamente endividados a rolar os seus débitos a taxas aceitáveis — o que, por sua vez, gera nos investidores a confiança necessária para buscar ativos mais arriscados.

No Brasil, o risco político continua presente, mas a aproximação do Executivo com o chamado Centrão reduz a temperatura dos embates em Brasília. Já está sendo discutida a aprovação de novas reformas que se fazem mais necessárias do que nunca depois dos gastos extraordinários decorrentes da crise atual. Continua sendo muito importante, aliás, o alerta de que não devem ser criadas despesas recorrentes por conta de situações transitórias, e de que o teto de gastos deve ser mantido.

Entendemos que este movimento de alta recente nos mercados se deu mais pela redução na aversão ao risco do que por uma melhora concreta nos fundamentos macroeconômicos mundiais. Esta melhora, aliás, deve acontecer apenas em um segundo momento, à medida que a liquidez global se mantiver e as restrições causadas pela pandemia sejam retiradas. Temos aumentado o risco presente nos nossos fundos com cautela, por meio de uma estratégia de coleta de prêmio de risco global e pela recomposição de algumas posições em bolsa brasileira. Além disso, continuamos carregando proteções para as nossas posições em ações.

Boa leitura!

A economia e a pandemia

No mundo, os dados econômicos vêm melhorando. As atividades estão, aos poucos, sendo retomadas, e o turismo — ao menos aquele em nível mais local — gradativamente se recompõe. É razoável supor que as perdas na estação turística mais importante, o verão, serão menores do que o esperado inicialmente pois, por enquanto, o relaxamento das medidas de distanciamento social e de restrição à mobilidade está aparentemente sob controle no hemisfério norte.

O chamado R0 é um termo matemático usado em epidemiologia para indicar o poder de contágio de uma doença infecciosa em um dado momento. Ele indica o número de indivíduos que uma pessoa infectada contagia, em média. Na Europa e em muitos estados americanos o R0 já está abaixo de 1 — sendo que estão sendo consideradas as semanas que se passaram desde a reabertura. Isso significa que estes locais já estão percorrendo o caminho que leva à diminuição progressiva da presença do vírus. Além disso, o mundo desenvolvido parece ter aprendido a lidar melhor com o SARS-CoV-2.

No Brasil, o novo método de testagem desenvolvido pelo Hospital Albert Einstein combina alta precisão à capacidade de uso em larga escala — e já teve a sua patente registrada no Sistema Internacional de Patentes, nos Estados Unidos. Os pesquisadores da instituição adaptaram a tecnologia denominada Sequenciamento de Nova Geração, ou Next Generation Sequencing (NGS) para a análise de RNA ao invés de DNA. O teste tem um índice de acerto de 100% e é o primeiro exame genético do mundo capaz de detectar o novo coronavírus em larga escala empregando esta técnica. O exame mais preciso hoje, e que vem sendo usado nos hospitais do mundo todo, é o chamado RT-PCR. O novo teste desenvolvido pelo Hospital Albert Einstein permite a análise simultânea de até 1.536 amostras, 16 vezes mais do que no caso do RT-PCR. Disponível a partir de junho, este novo método deverá ajudar bastante tanto no volume de testes feitos quanto nas ações de monitoramento e isolamento dos casos de contaminação. São iniciativas deste tipo que farão a diferença na hora de manter o sistema de saúde de pé — especialmente quando consideramos que a reabertura da economia brasileira está sendo iniciada sem que o R0 no país esteja menor do que 1, o que garantiria uma trajetória não explosiva dos novos casos. Estudo recente da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) aponta que o R0 ainda está em 1,4 no Brasil.

A política no Brasil e no mundo

No plano político brasileiro, a aliança de Bolsonaro com o chamado Centrão parece ser positiva pois a distribuição de vários cargos a estes novos aliados aumenta a governabilidade e diminui consideravelmente o risco de um impeachment via Congresso. A julgar pelo que sabemos e escutamos dos líderes do Centrão, estes políticos estão com uma visão reformista e se orgulham de terem tido um papel fundamental na aprovação de reformas anteriores. O risco maior, neste caso, se dá em relação ao Programa Pró-Brasil — inteiramente permeado pela visão de que a crise exigiria um investimento público muito maior do que aquele que a equipe econômica tem em mente. De qualquer forma, há a possibilidade de as reformas tributária e administrativa serem pautadas ainda neste ano, já que o recesso de julho foi cancelado e as eleições municipais devem ser postergadas para dezembro.

Dentro deste contexto, entendemos que o problema político maior para o Executivo é a corrente investigação de fraude eleitoral pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), dado que ela pode resultar na cassação da chapa Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão. Se isso ocorrer, novas eleições diretas terão que ser convocadas (as eleições indiretas via Congresso só existiriam se a cassação da chapa se desse na segunda metade do mandato). De qualquer forma, a popularidade do presidente tem se mantido estável mesmo em meio às confusões dos últimos meses, o que diminui as chances de o mandato dele ser interrompido. Além disso, tanto o Executivo quanto o Judiciário demonstraram um recuo nos enfrentamentos que vinham ocorrendo entre ambos. O presidente participou, por exemplo, da posse do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes no TSE. Além disso, o ministro do STF Celso de Mello acatou a posição da Procuradoria-Geral da República e arquivou o pedido, feito por três partidos, para que fossem apreendidos os telefones celulares do presidente e do seu filho Carlos Bolsonaro.

Nos Estados Unidos, por sua vez, o cenário político se tornou mais delicado. As tensões com a China não só continuam como ganharam agora um novo e potencialmente explosivo ingrediente: a nova lei de segurança imposta a Hong Kong. Embora ações de retaliação sejam esperadas nos dois lados, a temida ruptura no acordo comercial entre ambos os países ainda não aconteceu. E, apesar das ameaças, não só não houve perdas comerciais como ocorreu uma maior contratação de compra de soja americana pela China.

O fato de os Estados Unidos estarem em um ano de eleição presidencial contribui para a instabilidade política presente. Apesar de faltarem ainda cinco meses para as eleições, tanto as medidas vistas como menos agressivas em relação à China quanto as falas incendiárias do presidente Donald Trump em meio aos recentes protestos antirracismo acabam tendo efeitos negativos. Afinal, saem frustrados o eleitorado favorável a Trump, os americanos que nutrem maus sentimentos em relação à China (um grupo cujo tamanho não é desprezível) e mesmo aqueles eleitores que nutrem uma posição mais neutra em meio à disputa eleitoral que se avizinha. Os jovens e os negros se tornam, portanto, um alvo eleitoral para o candidato democrata Joe Biden.

Do lado da China, é razoável supor que o tom em relação aos Estados Unidos só será elevado quando as eleições neste país estiverem mais próximas. O grau de retomada da atividade econômica americana terá um peso importante na escolha dos eleitores. Uma briga maior com a China certamente atrapalharia esta recuperação, e a China tem plena consciência disso. Uma escalada nas tensões entre as duas potências traria hoje danos à imagem de Trump e abriria mais espaço para a vitória de Joe Biden, que faria um governo certamente mais amigável no plano externo.

Mercados

O mês de maio trouxe bons resultados para o real e para a curva de juros brasileira. Contrariando a tendência dos últimos anos que deu origem ao tradicional “sell in May and go away”, os mercados globais seguiram no caminho da recuperação da crise causada pela pandemia — recuperação esta que se iniciou ainda em abril. Com diversas economias globais reabrindo e governos comprometidos com estímulos para a retomada das atividades, o mercado saiu em busca de ativos mais arriscados.

Por mais que a melhora ainda não apareça nos fundamentos econômicos, o mercado percebe um risco menor olhando para o futuro. Podemos observar isso através do VIX, o índice do medo, e que representa a expectativa do mercado para as oscilações no S&P 500.

Índice VIX (índice do medo), últimos 12 meses. Fonte: Bloomberg

Como já mencionamos, o Ibovespa registrou em maio uma alta de 8,6%, recuperando parte da queda recente e fechando o mês com um acumulado no ano de -24,4%. Acreditamos que há alguns papéis com preços atrativos, e que o índice deve recuperar ao longo dos meses mais uma parte das perdas.

Algumas empresas estão se saindo particularmente bem no mercado acionário por estarem endereçando de forma assertiva as necessidades imediatas impostas pelo isolamento social — basicamente, o “fique em casa” e o “trabalhe em casa”. Em um segundo momento, porém, será necessário empregarmos o discernimento para selecionar as empresas cujo modelo de negócio permitirá que as suas atividades sigam prosperando à medida que as ações de distanciamento social são retiradas.

O dólar permaneceu estável frente ao real durante o mês de maio, sendo que a alta acumulada no ano até agora foi de 34,6%. Acreditamos que haja espaço para uma apreciação da moeda brasileira, pois o arrefecimento da crise está fazendo com que o dólar perca força mundialmente.

As taxas de juros de longo prazo no Brasil aceleraram as suas quedas, acompanhando o cenário mais favorável que se desenha no plano macroeconômico. O mês de junho deve trazer mais um corte na taxa básica, a Selic, por parte do Banco Central, de forma a estimular a atividade econômica.

Agradecemos a leitura e até a próxima!