Carta Loyall Março 2020

Sumário

Desde dezembro de 2019 temos reduzido as nossas posições otimistas com o Brasil e que carregamos desde o segundo semestre de 2018, por entender que os preços estavam refletindo um otimismo demasiado. Mesmo entrando no mês de fevereiro com posições menores, os nossos fundos sofreram com a queda nos preços de mercado devido ao evento COVID-19. Tanto as nossas posições proprietárias quanto a alocação em gestores multimercado e de ações contribuíram negativamente para os resultados.

Já em março, mais cidades importantes no mundo entraram em quarentena, o que piorou ainda mais a expectativa de desaceleração econômica resultante das medidas para conter a rápida propagação do vírus. Com isso, houve uma enorme busca por liquidez global, o que fez as bolsas globais caírem ainda mais, numa velocidade maior que nas grandes crises de 2008 e 1987. Até os ativos considerados seguros, como títulos do tesouro americano e o ouro caíram de preço desde que a Itália decretou quarentena em 9 de março.

Para aliviar a desaceleração da economia global, os principais bancos centrais e governos do mundo estão fazendo estímulos econômicos massivos, cortando o que é possível de juros, comprando ativos e disponibilizando recursos financeiros para empresas e pessoas com mais dificuldades durante o período de distanciamento social.

Globalmente, o mercado acionário já reflete a expectativa de recessão. De acordo com os nossos estudos, a contração econômica deve ser muito aguda e, se as quarentenas funcionarem rapidamente, o crescimento retoma no segundo semestre (a atividade econômica na China já está voltando). Se um tratamento ou vacina for aprovado, a volta deverá ser mais veloz que o imaginado. Já se as medidas para conter a disseminação do vírus não funcionarem em semanas, as políticas precisarão ser revistas e os impactos econômicos e de saúde pública poderão ser maiores.

Assim, apesar de os preços das ações parecerem atrativos, entendemos que a falta de visibilidade prescreve cautela. Hoje carregamos apenas posições moderadas em ações e em NTN-Bs.

Boa leitura!

Coordenação global para o combate ao coronavírus

A explosão no número de casos de COVID-19 tem reduzido o tráfego de pessoas pelo mundo de forma drástica, pessoas têm evitado e vêm sendo obrigadas a evitar lugares públicos e eventos diversos em áreas com propagação relevante têm sido adiados ou cancelados. As perdas econômicas decorrentes destes movimentos serão o próximo obstáculo a ser superado pelo mundo nesta crise. A nossa expectativa é que, conforme as medidas de contenção forem fazendo efeito, num segundo momento elas serão relaxadas e a produção e o consumo podem começar a voltar.

Governos do mundo todo têm cortado os juros e oferecido liquidez para empréstimos a juros mais baixos, renegociações de dívidas, auxílio aos mais vulneráveis e ao setor de saúde, buscando evitar uma queda muito grande na qualidade de vida das pessoas, manutenção da saúde pública e suporte financeiro às empresas para evitar muitas demissões. Mas para que a crise seja curta, as medidas de distanciamento social precisam ser eficientes para que possam durar pouco.

A China, primeiro local afetado e que fez quarentena em grande escala, já está voltando às atividades normais, mas ainda com restrição à mobilidade de pessoas: para ter livre circulação, você tem que receber aprovação através de um app que identifica o seu risco de contaminação. Na área econômica, a China fará novos investimentos em infraestrutura para evitar uma desaceleração muito grande no seu crescimento.

A este cenário de médio prazo soma-se agora o indicativo de que Joe Biden deverá ser o candidato do Partido Democrata nas eleições presidenciais norte-americanas de novembro. Após ter conseguido o maior número de delegados na famosa Super Terça das eleições primárias americanas, o ex-vice-presidente ressurgiu com muita força na disputa pela vaga para enfrentar o atual presidente Donald Trump, que tentará a reeleição. O grande empuxo obtido pela candidatura de Joe Biden diminui a incerteza quanto ao futuro econômico dos Estados Unidos neste momento bastante delicado, dado que as suas propostas são mais ponderadas do que aquelas do pré-candidato Bernie Sanders. Além disso, outros pré-candidatos democratas importantes (como Elizabeth Warren, Pete Buttigieg e Michael Bloomberg) desistiram da disputa e provavelmente irão apoiar Biden por entender que ele tem melhores chances contra Trump.

No Brasil, dados do Produto Interno Bruto (PIB) de 2019 mostraram uma clara mudança no motor por trás do nosso crescimento na comparação com os anos pré-crise (ou seja, 2013). Com um crescimento muito menos dependente do gasto público, as taxas de juros em seu menor patamar histórico e a perspectiva de aumento de produtividade decorrente da agenda econômica que vem (e seguirá) sendo votada no Congresso, temos hoje no país uma economia mais sólida que há alguns anos. Os efeitos do coronavírus por aqui já apareceram e serão severos, assim como em qualquer outro país do mundo. É importante que o avanço de nossos fundamentos pós crise de 2014 sofram o mínimo possível de impacto, pois o efeito do vírus será passageiro, mas as distorções geradas podem ser permanentes. Por isso, há muita cautela para que todo aumento de gastos nessa situação seja também temporário, diferentemente do BPC, e que seja da magnitude necessária para mitigar os efeitos em nosso país. Nesse sentido, o governo tem deixado claro que está ciente dos riscos e busca ser o mais eficiente possível.

No âmbito político em 2020, a articulação será mais delicada e ruidosa do que no ano passado, pois teremos eleições municipais em outubro, eleições essas que podem até mesmo ser postergadas a dezembro. Recentemente o Congresso mostrou a sua força contra o Poder Executivo ao derrubar o veto presidencial ao aumento do limite de renda para a concessão do Benefício de Prestação Continuada (BPC), veto este que já foi reestabelecido e que cairá nas próximas semanas quando indicarem qual gasto ou receita deverá garanti-lo. A ideia do governo é negociar esse aumento de gasto para patamares menores e, assim, focar somente na questão da saúde pública, desemprego e fluxos de caixa das empresas, até para que o rombo do orçamento de 2020 não seja tão profundo.

O mercado segue arisco com a incerteza elevada

Em menos de um mês as bolsas ao redor do mundo tiveram quedas expressivas e rápidas. Os níveis de volatilidade dispararam a níveis maiores que os da crise de 2008. A rápida propagação do coronavírus forçou governos ao redor do mundo a tomar medidas restritivas e imediatas, decretando quarentenas, fechando fronteiras e limitando a locomoção de pessoas – o que gera problemas nas cadeias produtivas globais e um colapso na demanda, o que já está afetando as atividades de diversas empresas pelo mundo.

A instabilidade nos mercados não ocorreu sem motivo. A crise é grave e a incerteza parece crescente quanto ao impacto que o coronavírus terá no lucro das empresas e no crescimento dos países – e a estas incertezas se somam também aquelas oriundas do atrito entre a Arábia Saudita e a Rússia, que deflagraram uma guerra de preços no mercado de petróleo, durante um choque de demanda, o que levou o valor do barril a níveis extremamente baixos.

No Brasil, o Banco Central tem atuado provendo liquidez no mercado cambial através de venda de dólar à vista, empréstimos em dólar e derivativos. Por sua vez, o Tesouro Nacional também passou a fazer leilões de recompra de dívida para prover liquidez a quem precisa vender títulos públicos – o que ajudou a atenuar as variações nos preços. Na bolsa, no entanto, não houve defesa possível.

Entendemos que os impactos das políticas de contenção do coronavírus serão grandes no curto prazo, e que alguns setores da economia sofrerão estes efeitos de forma mais prolongada. Mas, passado o temporal, provavelmente iremos olhar para trás e perceber que os preços de mercado estavam em níveis muito interessantes. É impossível saber se o mercado irá melhorar ou continuar piorando nas próximas semanas, mas continuamos com a visão de que as boas empresas seguirão por aqui. Mesmo assim, a incerteza extremamente alta nos faz adotar posições modestas.

Agradecemos a leitura e até a próxima!

Imagem:  Centers for Disease Control and Prevention (CDC)